A INDÚSTRIA / COPRODUÇÃO
Por que olhar para o Brasil na próxima coprodução?
Para produtoras britânicas e europeias, a oportunidade está numa parceria criativa, num financiamento mais amplo e em outro caminho até o público. Não apenas num lugar mais barato para filmar.

Um filme pode cruzar fronteiras muito antes de um distribuidor comprá-lo.
O Agente Secreto reúne a brasileira Cinemascópio, a francesa mk2 Productions, a alemã One Two Films e a holandesa Lemming Film. Sua identidade brasileira não se dissolve nesse mapa de produção. O mapa ajuda a entender como uma história enraizada num lugar pode ser construída com parceiros internacionais.
É um ponto de partida útil para olhar o Brasil: o que a parceria permite realizar que nenhuma das empresas conseguiria reunir sozinha?
Existe público além da sala do festival?
O Brasil é um mercado relevante, não apenas um cenário. O relatório anual mais recente da ANCINE sobre cinema registra 112,8 milhões de ingressos, R$2,3 bilhões de bilheteria e 3.544 salas em funcionamento. Ingressos medem visitas, não pessoas diferentes. O mesmo relatório mostra queda de 10% no público, com filmes brasileiros respondendo por 9,9% dos ingressos. A escala oferece um mercado que merece ser entendido, não um público garantido para toda coprodução.
O reconhecimento internacional acrescenta outro argumento.
Ainda Estou Aqui conquistou o primeiro Oscar brasileiro de filme internacional.
O Agente Secreto recebeu os prêmios de direção e atuação em Cannes, além de contar com uma rede internacional de produção e distribuição. Essas conquistas mostram que histórias marcadamente brasileiras podem atrair atenção fora do país. São credenciais, não previsões de receita.
Quem já está investindo nas histórias?
Os anúncios de produções brasileiras da Netflixincluem cinco novidades e parceiros como Maria Farinha Filmes, A Fábrica e Café Royal. O Prime Video também anunciou um programa maior de investimento na América Latina, incluindo originais brasileiros. Seu orçamento regional contempla ainda conteúdo adquirido e esporte: não é um fundo de cinema exclusivo do Brasil.
O sinal útil está na continuidade das encomendas e das relações com empresas locais. Mas um original financiado por uma plataforma não é necessariamente uma coprodução internacional oficial. É preciso distinguir encomenda, licença e parceria com direitos compartilhados. A demanda existente justifica investigar, não presumir que uma plataforma financiará a próxima proposta.
A estrutura de produção consegue entregar?
Há capacidade por trás da proposta. A Globo descreve um estúdio de produção virtualcom mais de 1.500 metros quadrados e mais de 300 metros quadrados de telas de LED. Os créditos do Copa Studio incluem trabalhos de animação para My Little Pony e Johnny Test, evidência de equipes brasileiras trabalhando em cadeias internacionais de produção.
São competências específicas, não prova de que toda instalação esteja disponível para um longa independente. A produtora ainda precisa verificar disponibilidade de equipe, acesso, fluxo de trabalho e orçamento real. O argumento é que o Brasil oferece conhecimento de produção, não apenas paisagens ou mão de obra barata.
Uma mina de ouro de propriedade intelectual?
O material vai além do drama de festival. Os anúncios de adaptações da Netflix incluem The Pilgrimage, de Paulo Coelho, o thriller A Estranha na Cama, de Raphael Montes, e Os 12 Signos de Valentina, de Ray Tavares. A lista também traz o formato brasileiro de reality Sua Mãe Te Conhece. Livros, ficção de gênero e formatos oferecem pontos de partida diferentes para uma parceria.
Chamar esse repertório de mina de ouro faz sentido como argumento criativo, não como afirmação de que esses direitos estão disponíveis. Um parceiro brasileiro pode ajudar a identificar obras, entender seu público e chegar aos titulares dos direitos. Adaptar ainda exige uma cadeia de direitos clara e um motivo para a história viajar. O reconhecimento em casa abre uma conversa, não garante demanda fora.
O que o acordo realmente oferece?
O acordo Brasil-Reino Unido oferece um caminho para o reconhecimento de coproduções de cinema e televisão. Com a aprovação definitiva, a obra recebe tratamento nacional nos dois países para os benefícios previstos, respeitadas as regras locais. Isso pode importar para o tratamento tributário e o acesso a apoio. Não é um cheque ligado a uma locação brasileira.
As duas autoridades precisam aprovar o projeto. Benefícios culturais, contribuições financeiras e o trabalho de cada parceiro devem se enquadrar no acordo. No Brasil, o reconhecimento da ANCINE tem etapas provisória e definitiva. O reconhecimento inicial não garante que a obra concluída se qualifique.
A Europa não é um território único de tratados. O Brasil mantém acordos bilaterais com Françae Alemanha, entre outros países. A Convenção revisada do Conselho da Europa oferece outro marco para filmes multilaterais elegíveis. A participação de países não integrantes exige pelo menos três coprodutores em três Estados diferentes que sejam partes da Convenção e limita a contribuição conjunta dos não integrantes a 30%. Não é um atalho para qualquer parceria entre dois países, nem uma concessão automática de financiamento europeu.
De onde pode vir o dinheiro?
Para produtoras britânicas independentes elegíveis, o UK Global Screen Fund oferece apoio não reembolsável à coprodução de até £300 mil. Longas exigem participação britânica minoritária; na televisão, o apoio contempla animação e documentário, não séries de ficção. A seleção é competitiva e depende do financiamento, das contribuições e de outros critérios.
Há um exemplo prático: o BFI apoiou Luna in Dreamland, coprodução de animação para TV anunciada entre a Flickerpix, da Irlanda do Norte, e a brasileira Copa Studio. É uma parceria financiada, não um sucesso de público já comprovado.
O apoio brasileiro exige leitura igualmente cuidadosa. Um edital do FSA com Portugal destinou aproximadamente R$2 milhões a longas independentes com participação brasileira minoritária. É um programa competitivo específico, não um reembolso universal de despesas. O reconhecimento da ANCINE pode abrir acesso a mecanismos; não significa receber todos os fundos disponíveis.
E para onde vai o filme?
O Último Azulune a brasileira Desvia a parceiros como a holandesa Viking Film. A imprensa especializada registra vendas para vários territórios europeus. Ao lado de O Agente Secreto, oferece evidência de parcerias e circulação internacional, não prova de que a coprodução sozinha causou vendas ou lucro.
O argumento comercial vai além da economia. Um parceiro bem escolhido pode ajudar a reunir financiamento, conhecimento de produção e relações em mais de um mercado, preservando a especificidade da história. Mas o contrato precisa definir direitos, territórios, controle criativo, exposição cambial, entrega e prioridade na recuperação dos investimentos. Uma seleção em festival não resolve essas questões.
O Brasil merece entrar na lista de uma produtora quando a história e a parceria justificam essa escolha. O argumento mais forte não é "o Brasil é mais barato". É "este filme se torna mais viável, e seu caminho até o público mais convincente, com esta empresa brasileira envolvida".